Felicidade - por Lígia Beltrão

Felicidade - por Lígia Beltrão

Felicidade

 

       Ela dormia serena guardada dentro dos seus braços. Ele a acariciava velando-a para despertá-la de mansinho, com cuidado, logo mais. Procurava montes encantados onde o desejo fazia curvas sinuosas no silêncio do instante. Falava ao seu ouvido num sussurro feliz. Ela mexe-se e rende-se às suas mãos carinhosas. Acorda brejeira, como sempre.

       Abre os olhos, preguiçosa, e sorri mostrando-se receptiva. Entrega-se ao sol da sua boca ardente, que fala todas as palavras de amor de uma só vez. Caminham os dois por uma estrada escancarada, vestida de flores e de matizes vários. Lá fora o vento passa zunindo, a comemorar a vida. Rendem-se ao amor que os domina e se entregam ao momento. São agora dois amantes, pedaços um do outro.

       Olham-se e perdem-se nos lagos brilhantes dos olhos de cada um. Quem diria que a mocidade retornaria as suas vidas e mexesse de tal forma com os seus corações. Estão no outono do viver, mas sentem-se como se nascessem a cada dia e vivem como se cada dia fosse o último. Vivem a eloquência dos apaixonados. Selam os instantes com amor.

       O silencio tece rendas e desfia gestos e as mãos se tocam como se fossem as asas do sol dourado, e dos lábios silenciosos promessas tantas, fazem ecos através dos olhos, fachos de luz a alumiarem os corpos. Os peitos palpitam e já não precisam de palavras para entender-se o que lhes vai à alma. Riem-se. O dia é todo deles. Como todos os dias. Lá fora o vento canta baixinho imitando rouxinóis e até as pedras mostram espanto e batem o coração quando as bocas deles se juntam em mais um carinho.    

       Eles acordaram quando a manhã já ia longe. O sol já havia caminhado quase metade do dia, mas esquecera de chamá-los. Sorriem encantados. Que importa se as horas se foram sem avisar. Se o tempo gemendo, arrastara-se a contragosto. Viria à felicidade os cobrar? Olham-se amorosos sem fazerem conta destas horas que sumiram. Brincam um com o outro como se fossem dois jovens enamorados. E são. Dentro deles acordou um amor que não viveram e que se descortina agora, sem nenhum pudor. Estavam suas almas prometidas, mas demoraram a encontrarem-se.

       A boca do dia abre-se esfomeada chamando-os a vida que não espera. Ele ergue-se da cama sem tirar os olhos da amada. Fala qualquer coisa que a faz sorrir. Ela sente-se completa e feliz e responde-lhe com uma carícia. Ele toma banho. Arruma-se, enquanto ela, o olha encharcada de amor. Ele prepara o café da manhã enquanto ela toma banho e perfuma o corpo com a suave lavanda que o entontece. Ajuda-o, agora, a por a mesa e sentam-se alumiados pela luz do quase meio dia que adentra a porta aberta e faz sombra ao descanso daquele amor desmedido. As mãos esbarram-se e eles olham-se com a certeza da felicidade plena.

       Não importa o mundo nem as horas vãs, passou o tempo de perguntas e respostas e tudo o que importa agora é ser feliz o tempo que lhes resta. Lembro os “Versos de Orgulho” de Florbela Espanca que dizem:

“O mundo? O que é o mundo, ó meu amor? / - O jardim dos meus versos todo em flor... /A seara dos teus beijos, pão bendito... / Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços... / - São os teus braços dentro dos meus braços, / Via Láctea fechando o infinito”.

       Comem felizes as fatias douradas que ele carinhosamente preparou. Douradas como são as folhas do outono. O sol vai passando devagarinho para não despertá-los do enlevo do amor.

 

       São únicos...

 

                                                           Lígia Beltrão

 

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