Um furo na parede - por Fernando Jacques - JAX

Um furo na parede - por Fernando Jacques - JAX

UM FURO NA PAREDE

(versão desperta)

JAX

 

            Tarde marota de domingo, nada pra fazer, nem chuva, nem sol, tempo fresco, sofá confortável, televisão desligada (o que aumenta o conforto), celular no fundo do bolso de alguma calça, mulher e filhos no shopping, quietude absoluta, aquela imensa parede branca diante de si.

            E o furo no meio da parede.

            No meio, não exatamente. A bem da verdade, na parte superior da parede, um pouco mais à direita do que à esquerda. Está no meio, isso sim, do olhar. Desse olhar preguiçoso, pretensamente meditativo, desejoso às vezes de ver mais do que pode ou seria natural.

            Se uma das pretensões básicas do ser humano consiste em saber a origem de tudo na vida, o tipo esforça-se para lembrar como aquele furo foi parar ali. Para evitar dúvidas, reivindica seus direitos autorais de imediato. Furo aparentemente tão perfeito só pode ter sido sua obra. A família acabara de mudar-se para o apartamento. Ainda havia caixas de mudança a desfazer, quadros a pendurar nas paredes. Certamente, dias atrás, registrara-se consenso familiar na colocação de mais um desses quadros. Como consequência, ele produzira o orifício necessário, que ali permaneceu incompleto, sem gancho nem o penduricalho. E a bucha?

            De onde estava, não conseguia distinguir se havia ou não bucha dentro do tal furo na parede. Questão de somenos importância, de resto. Refutou a ideia de erguer-se de sua comodidade para tirar tão comezinha dúvida.

            O ponto relevante da história é que o furo estava feito, perfeito e acabado. Primor! Faltava falar como obra clássica da Antiguidade. Só que naquele ambiente nada havia de antigo. Apartamento recém-construído, cheirando a tinta, enquanto o novo proprietário andava ainda na casa dos seus quarenta anos, com muito chão (e parede) pela frente. O furo não falou, portanto. Em vez disso, verteu água, límpida e clara, feito ribeirão. Sem que se entendesse como tanto líquido poderia fluir por orifício tão pequeno e formar linda cascata, que inundou a sala e refrescou ainda mais a tarde dominical. No sofá, o quarentinha sentia o prazer dos pés na água refrescante e tentava identificar as espécies de peixe que desciam pela cachoeira e nadavam graciosamente entre as pernas dos móveis. Pena que a mulher e os filhos estivessem perdendo semelhante espetáculo. Quem mandou ir a shopping? A Natureza supera qualquer comércio.

            Se, por um furo pode sair tanto, outro tanto pode entrar, no entanto. Eis que, despregando-se momentaneamente do aprazível sofá, o meditabundo ser envereda por aquele canal, parede adentro, num misto de curiosidade e de aflição ante o desconhecido.

            Que diferente perspectiva! Das águas transparentes alimentadas pela pujante cascata passar ao deserto arenoso por detrás da parede. Mesmo se o tempo permanece fresco, sem alterar-se o clima da tarde de domingo, o viajante sente a garganta seca e sua interiormente sem saber se poderá matar a sede. Caravanas passam ao longe, mas ele não se sente seguro para aproximar-se. As pessoas não falam a mesma língua num só lugar, que dirá em ambientes que variam da água para a areia.

            Melhor regressar ao conforto da sala e do sofá. Mal se reinstala e percebe algo diferente. Onde foi parar o furo? Abandonou seu posto na parede e iniciou trajetória descendente, decadente, até o rés-do-chão. Não satisfeito, alargou-se por si só, virou cratera. Já em dúvida se seria a mesma obra de sua suposta autoria, o homem recolheu as pernas para cima do sofá e olhava o enorme buraco como se estivera a mirar a boca do precipício.

            Tentava compreender os dramas e comédias que ali pareciam desenrolar-se. São muitas, porém, as situações que escapam à percepção humana. Ora o caso da menina pobre e faminta ficava obscurecido por nuvens que surgiam da cratera, ora a alegre armação de um grupo de amigos iluminava-se a ponto de impedir que se visse o desfecho da trama.

             O tipo insistiu a mais não poder em desvendar essas ocorrências, mas a monotonia da tarde dominical paralisava a ação resoluta da mente ao invés de estimular a dose certa de reflexão e interpretação. O buraco no chão foi encolhendo-se e deu lugar ao furo, que retornou à parede, mas não pensem que isso significou a volta ao statu quo ante.

            Em seu estágio quarentão, o tipo aprendera que, uma vez dado o furo, tudo pode acontecer. Não há maneira de corrigir o erro cometido, de compensar o gesto infeliz ou de remediar o malfeito.  Fica-se ao sabor das circunstâncias, sujeito à mágoa, ao rancor e, pior ainda, ao desprezo. Para que persistir, pois, em mirar esse furo na parede, com a obsessão dos tolos, como se houvesse possibilidade de meramente inserir-lhe um gancho e apor um quadro que reconstitua o momento perdido?

            Ocorreu-lhe que aquele pequeno orifício na parede não necessariamente traduziria o começo de vida nova, representada pela imagem a ser ali fixada. Poderia ser resquício de algo passado, que ali estivera, mas não mais se encontrava. Paisagens ou abstrações removidas, amores passageiros, aspirações perdidas, sonhos desfeitos, o rol do que passou pode ser incomensurável. Por outro lado, o futuro também se afigura imenso, pleno de alternativas. Em súbito arroubo poético, sentindo falta da esposa e dos filhos, o “pensador” descobre que o futuro rima com o furo, pelo qual voltam a transitar mil imagens, devaneios e elocubrações vespertinas.

            Tamanho o poder imaginativo do ser humano que o simples furo na parede se multiplica. Talvez já um tanto cansado a essa altura da tarde, o pobre espírito só consegue associar a superfície assim furada a um queijo suíço, matéria da sua predileção, e ceder à realidade da fome: urge alimentar o estômago. De forma decidida, deixa o sofá e resolve sua aflição concreta e imediata.

            De volta ao local, já escurecendo, acende a luz e desinteressa-se de continuar a inquirir o foco anterior de sua atenção. Lembra-se de que não terminara de ler as notícias.

            Retomando o diário largado no canto esquerdo do sofá, conclui seu domingo surreal com mais meditações contraditórias sobre o significado, os prós e os contras dos furos jornalísticos.     

 

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